O adoecimento psíquico como saída para a opressão feminina no filme Swallow (2019)
- Dra. Fernanda Sartori

- Oct 3
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No filme Swallow (2019), dirigido por Carlo Mirabella-Davis, Hunter é uma jovem mulher vivendo uma vida aparentemente perfeita.

Ela é bonita, veste roupas e jóias chiques, mora em uma casa de revista e acaba de ser acolhida por uma família abastada que lhe oferece tudo isso — mas, claro, não sem um custo: que ela seja impecável, mantenha a casa impecável, cuide impecavelmente de seu marido bonito e prepare refeições impecáveis. E, de preferência, faça tudo isso sem emitir opiniões, já que ninguém — nem mesmo seu belo marido — parece interessado em ouvi-la.
Por algum tempo, Hunter desempenha de maneira igualmente impecável esse papel, falando pouco e muito baixo, apenas para agradecer ou pedir desculpas.
No entanto, Hunter descobre que algo está crescendo dentro dela — não ódio, como poderíamos esperar, mas um bebê.

Enfrentando uma angústia que não consegue nomear, e tão acostumada a engolir coisas que não deveria, ela adoece e desenvolve um distúrbio psicológico: a pica.
Esse transtorno alimentar consiste na ingestão persistente de objetos não comestíveis, como terra, papel, metais, entre outros.
Não sabendo como lidar com a estranheza do que sente e com o horror das violências invisíveis que a machucam, Hunter passa a devorar objetos perigosos, estabelecendo uma relação complexa entre controle, prazer e sofrimento.

Seu adoecimento, apesar de perturbador, é um gesto simbólico de resistência: é uma saída, uma tentativa de recuperar algum controle sobre seu corpo e sua vida em meio a uma realidade que constantemente a silencia e maltrata.
A partir do momento em que Hunter (“caçadora”, em inglês) compreende seu lugar como caça e como presa, ela pode transformar aquilo de traumático que foi inscrito por outros em algo novo e libertador, que ela mesma pode escrever.
Mais do que retratar um distúrbio psiquiátrico, Swallow é a história de uma mulher reivindicando sua própria voz e autonomia.
Fernanda Sartori.






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